Uma Leitura Térrea

Eu e uma amiga fomos à Vitória recentemente para um congresso sobre novas abordagens na saúde mental. Foi uma experiência muito rica, ouvir a prática de algo que na maioria das vezes para nós fica restrita apenas à conceitos e ideias por causa do limitado ambiente acadêmico. Além de ouvir as palestras, também aproveitamos a cidade (pelo menos parte dela) no curto tempo que tínhamos. Uma das coisas que fizemos foi ir ao shopping, onde eu queria ir na livraria. Adoro livrarias. Sempre gostei muito de ler e ultimamente estou no que eu chamo de "alta" que são momentos da minha vida em que eu subitamente sinto vontade de aprender e experienciar com mais intensidade. Então fomos à livraria.

O que capturou minha atenção primeiramente em um dos livros que escolhi foi a pintura na capa; trata-se da pintura de um rosto lido por mim como apático, cansado e sem vida. A pintura foi feita por Gill Button, uma artista de Londres. A maior parte de suas obras consiste de rostos femininos. A segunda coisa a me chamar a atenção foi a descrição da história, da relação dos personagens principais. Cleo (a Cleópatra do título) é uma artista inglesa de 24 anos vivendo em Nova York. Frank (o Frankenstein) é um publicitário com o dobro da idade. Ela vive uma vida boêmia e ele uma vida luxuosa. O visto de estudante dela está perto de vencer. Eles se conhecem numa festa e se apaixonam, casando-se pouco depois. Quando li essa descrição, imaginei certas coisas. Recebi outras bem mais duras.

Existe pouca diversão nessa história; ela é na verdade angustiante na maior parte do tempo. Cleo e Frank são, eu percebo ao longo do tempo, como crianças desorientadas buscando pela mão de um Outro. Alguém para lhes dizer o que fazer e como fazer. Eles claramente não podem fazer isso um pelo outro, mas perceber é diferente de enfrentar. Ambos perderam suas mães, embora de formas diferentes. A mãe de Cleo se matou, a mãe de Frank o abandonou (mas não no sentido material, o que talvez piore tudo). Os pais sempre foram ausentes. Ela cresceu tornando-se caótica e sonora para ser notada (o que a leva às artes) e ele oprimido e eficaz para não perturbar a mãe (o que o leva às vendas). Ambos querem ser vistos mas os mecanismos que encontram para isso são muito diferentes e é fascinante.

Para entender o mundo deles, o livro também nos apresenta seus amigos e seus dilemas pessoais. Há Quentin, o amigo polonês de Cleo que é gay e o herdeiro de uma família tradicional; Zoe, a meia-irmã epilética de Frank que exala luxúria mas tem medo de sexo e intimidade; Anders, o melhor amigo de Frank que com quase 50 anos continua incapaz de assumir compromissos afetivos; e Santiago, o chef de cozinha amoroso e divertido preso na morte da esposa por overdose há quase vinte anos. Todos são uma deliciosamente amarga salada de contradições.

Outra personagem, a única a narrar a história em primeira pessoa, é Eleanor. Ela é de Nova Jersey. Ela não é tão "interessante" quanto os outros. Enquanto os outros parecem fantasia, ela é real. Seus sentimentos e desafios poderiam ser os de qualquer um. Ela é minha personagem favorita. Me fascina ela ser a única a narrar a própria história, e sempre com poucas palavras e pausas. É como se os outros, em suas vidas-fantasia (como as que vemos em filmes e redes sociais) não tivessem a capacidade de nomear o mundo ao seu redor; como se isso, a capacidade de realmente sentir, fosse um privilégio (algo do qual Eleanor discordaria à princípio) apenas dos que vivem na terra. E por viver na terra, eu digo aqueles que se permitem ser falhos e entendem estar errados. E essa foi a minha percepção ao terminar essa leitura: viver na terra é o mais perto do ceú que chegaremos.



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