Conservadora em Tratamento

Recentemente eu mudei. De casa, primeiramente, foi algo bem literal. Aconteceu tudo em um mês; o pedido de demissão, a organização da mudança e a procura por um emprego. Escolhi o apartamento para morar quatro dias antes de começar um trabalho novo e tudo foi colocado no lugar em três dias. Fiquei tão ansiosa que fiquei enjoada por dias e depois tive dores musculares (um sintoma que não surgia há um bom tempo).

Seguidamente, a outra mudança - e essa tem sido contínua - é em espírito. Veja bem, ano passado decidi finalmente começar análise. Foi uma escolha motivada por algo que uma professora disse e uma observação que fiz em minha própria vida. Foi um processo inicialmente emocionante e divertido, mesmo chorando em todas as sessões. Então um dia cheguei 20 minutos atrasada e dizendo que ultimamente tinha me sentido muito histérica. Naquele dia fui convidada ao divã. E desde então nada é o mesmo.

Eu passo muito tempo falando dos meus desejos, como as pessoas que me conhecem bem sabem. Gosto de compartilhar experiências e ouvir as dos outros também, é como se elas me alimentassem - um lembrete de que todos desejamos. Mas veja, eu falo muito e faço pouco. Percebi e me incomodei com isso. Transformou-se num incômodo tão grande, esse desejo por mudança mas as contínuas "escolhas seguras", que acabou sendo esse o tema principal de um mês inteiro em sessão. E então, um belo dia, as palavras viraram ato.

De repente me sinto a pessoa mais maluca e corajosa do mundo. Quebrando expectativas - alheias e as minhas - e me lançando para o mundo tal qual uma criança. Mas não me sinto infantil. Ao contrário, sinto que a criança em mim tem ficado um pouco mais distante. Agora em sessões volto à adolescência ou aos poucos anos antes dela. Minhas memórias são mais claras agora, até aquelas que pareciam ter sido apagadas. Já não me sinto triste pensando em mim jovem; sinto que tinha em minhas mãos muito mais do que me dava conta e que era mais amada do que percebia. Sinto nostalgia, mas nenhuma vontade real de retorno ao zero.

Não quero morrer ou recomeçar. Não quero um ponto final. Quero um ponto vírgula, algo contínuo. Quero reverberar e sentir tudo. Sinto que se o fracasso é possível na neutralidade ou no movimento, então prefiro cair tentando. Ainda me vejo conservadora, mas sinto-me movendo para algo mais eu, mais ético. E embora tenha medo, estou disposta a ver a resposta para a pergunta: o que eu quero? 


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