Meias Com Sangue

Eu odeio meias de cano curto. Essa criação pavorável foi a responsável por interromper o meu mais novo hábito de domingo: corrida. Não é porque eu quero ser mais saudável ou porque eu quero queimar calorias (isso aqui seria loucura). Eu quero passar em um concurso. Não, não esse ano. Daqui uns três anos. Um minuto para você tentar adivinhar que tipo de concurso exigiria um preparo físico (vai pensando...).

... Foi? É o QT da Marinha. Se você tem familiaridade com o QT da Marinha seu pensamento agora foi "BOA SORTE HA HA HA." Pois bem, boa sorte mesmo. Se você não tem familiaridade com o assunto, permita que eu te apresente esse concurso público que qualquer um com um bacharelado (nas áreas oferecidas), disposição e R$ 126 para a inscrição pode fazer. Primeiramente, esse é um concurso com o objetivo final de tornar-se Primeiro Tenente da Marinha. Há diversas etapas; a primeira, a mais fácil, é uma prova (com questões objetivas e uma redação). Depois, há uma série de etapas eliminatórias, como a verificação de dados biográficos, a inspeção de saúde, o teste de aptidão física, a verificação de documentos, a avaliação psicológica e etc. Não acontece necessariamente nessa ordem, estou apenas tentando deixar claro que isso aqui é A PROVA. Há ainda as etapas classíficatórias, que eu nem vou entrar em detalhes. Ano passado, abriram uma única vaga para a Psicologia. Em 2022, havia duas vagas e 870 candidatos. É um Jogos Vorazes!! Tudo bem que basicamento todo concurso em cidade grande é isso, mas meu deus! Eu nunca prestei concurso. Não parece horrível? De qualquer forma, acredito que vale a pena tentar. Quem não arrisca não petisca, né?

Enfim, voltando ao ponto de raiva que me fez começar a escrever hoje. A meia. Lá estava eu, caminhando e depois correndo na orla quando BUM. Sensação ruim. Calcanhar doendo. Não olhei. Continuei correndo, depois não aguentei e parei para mexer na meia. Não notei nada. Continuei andando até que 500 metros depois me dei por vencida e parei para verificar. 

"Ah, eu tô sangrando."



Arruinou meu momento, cara! Tudo bem que já haviam outros fatores me incomodando, mas nossa. Não fiquei brava, mas fiquei... frustrada. Não gosto quando uma coisa que eu planejo não dá certo por causa de uma escolha errônea minha. Quando é por coisas externas é muito mais fácil ficar com raiva e amaldiçoar tudo. Mas quando foi por minha culpa?

"Droga. Mas acontece, né? Ha ha ha."

Culpar os outros é fácil. De certa forma é até libertador. Mas admitir a própria culpa e lidar com as consequências é sempre frustrante. Agora já não estou falando da meia.

No caminho de volta para casa, não passei pela orla. Decidi seguir uma rota diferente, passando pela minha antiga casa. Ela é amarela agora e tem um menino que joga futebol morando lá. Eu percebi pelas chuteiras. A rua toda está muito diferente. Parece menor e mais pobre. Talvez fossem os óculos cor-de-rosa da infância que faziam aquela rua parecer cheia de vida, mas passando por ela hoje pela primeira vez em muito tempo, só senti solidão. Não havia crianças, não havia mães fofocando na janela. Aonda será que estão as crianças com quem eu brincava? Tinha o menino que tinha um garnizé de estimação, tinha a menina que frequentava a APAE e a mãe a maltratava (será que ela está bem?), tinha a menina que morava na casa verde e a avó sempre fazia grandes festas de aniversário... Nesse domingo, será que eles também estão se preparando para o futuro, ou será que de sonhos só lhes resta o passado?


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